Quem vê um mecânico de manutenção trabalhando em uma indústria metalúrgica ou siderúrgica dificilmente imagina o peso que ele carrega nas costas.
E não falo apenas das ferramentas, peças e equipamentos, falo do peso diário da sobrecarga física, das posturas forçadas, das longas jornadas em ambientes quentes e insalubres.
Esse peso invisível, acumulado ao longo dos anos, tem um alvo certo: a coluna vertebral, que se torna a primeira vítima silenciosa dessa rotina.
A realidade por trás da graxa e do ferro:
O mecânico de manutenção é chamado quando a máquina para, quando há urgência, quando tudo depende dele.
É nesse momento que ele se curva em espaços apertados, levanta peças pesadas sem ajuda adequada, passa horas em posições desconfortáveis e, muitas vezes, improvisa porque não recebeu os recursos de segurança necessários.
Esse ciclo, repetido dia após dia, vai cobrando um preço alto: a dor constante na coluna.
As doenças mais comuns da coluna no chão de fábrica
O corpo começa a dar sinais.
Primeiro, pequenas dores ignoradas.
Depois, crises mais fortes. Até que se tornam parte da rotina, quase “normais”.
Mas não são. São doenças sérias, como:
- Hérnia de disco – o disco entre as vértebras se desloca, causando dores intensas e até formigamento nas pernas;
- Lombalgia crônica – dor permanente na parte baixa das costas, que dificulta até levantar da cama;
- Espondilose – desgaste das vértebras, resultado de anos de esforço físico;
- Ciatalgia – inflamação do nervo ciático, que causa dor que desce pelas pernas e limita os movimentos.
Esses problemas não afetam só o trabalho.
Eles roubam a vida fora da fábrica: o mecânico que não consegue brincar com os filhos, dormir bem ou fazer uma simples caminhada sem sentir dor.
Quando a dor deixa de ser só sua
Muitos trabalhadores acreditam que a dor é parte do ofício.
Mas é importante deixar claro: não é normal viver com dor todos os dias.
Essas doenças são consequência de um ambiente de trabalho que não oferece pausas, não respeita limites físicos e não fornece suporte ergonômico adequado.
E quando a doença tem relação direta com o trabalho, ela é considerada doença ocupacional, com proteção prevista em lei.
O que a lei garante ao trabalhador.
Quando reconhecida como doença ocupacional, o mecânico de manutenção tem direito a:
- Auxílio-doença acidentário (B91), com estabilidade de 12 meses após a alta;
- Reabilitação profissional, para se adaptar a outra função caso não consiga mais exercer a atividade de manutenção;
- Indenização por danos morais e materiais, quando a doença gera incapacidade permanente;
- Tratamento médico adequado, custeado pela Previdência e, em alguns casos, pela empresa.
A coluna como símbolo da dignidade.
A coluna sustenta o corpo.
Da mesma forma, o mecânico sustenta, com seu trabalho, indústrias inteiras, garantindo que máquinas não parem e que a produção siga em frente.
Mas quem sustenta a saúde do trabalhador?
Não se pode aceitar que dores incapacitantes sejam vistas como “parte do trabalho”.
A coluna é o eixo da vida, e cuidar dela é cuidar da dignidade de quem dedica anos ao chão de fábrica.
Conclusão
Os problemas de coluna em mecânicos de manutenção na metalurgia e siderurgia não são apenas uma questão individual: são um reflexo das condições de trabalho.
Ignorar essa realidade é fechar os olhos para a dor de milhares de trabalhadores que mantêm de pé uma das bases da economia nacional.
É hora de quebrar o silêncio sobre essa dor invisível e afirmar: nenhum reparo de máquina vale mais do que a saúde da coluna de quem a conserta.
Dr. Valdenir Vanderlei
OAB/RJ 141.527




